18 de Agosto às 19:09, por Pedro

Sons para todas as idades

Novos e menos novos em comunhão não só na rotina da aldeia mas também nas primeiras filas dos concertos. Um segundo dia entre amigos, também no que toca às bandas, com You Can't Win Charlie Brown, PAUS e Linda Martini a trocar mimos. E aquele pôr-do-sol ao som de António Zambujo...

 

Linda Martini

 

O segundo dia de Bons Sons era sem dúvida o mais prometedor. Apesar de a força do rock alternativo reclamar o protagonismo, houve também espaço para o fado de António Zambujo e as canções tradicionais de Celina da Piedade ou Carlos Baptista.

 

Poucos festivais haverá em que até nos concertos mais mexidos a excitação das primeiras filas não oferece um ambiente hostil e permite que pessoas de qualquer idade possam fruir da música à sua vontade. Prova disso são a criança do alto dos seus dez anos e a senhora idosa a vibrar perto das grades do concerto de Paulo Furtado, The Legendary Tigerman, que o próprio não deixou de realçar. Como não quisemos perder pitada de nenhum concerto, andámos desde o início da tarde de palco em palco - o que não é fácil e nos fez chegar à noite de rastos.

 

 

You Can't Win, Charlie Brown

 

Perto da hora de almoço, fugimos da temperatura violenta e abrigamo-nos na sede da associação SCOS, que oferece a todos os festivaleiros um espaço com internet livre e um set onde os menos envergonhados e mais talentosos podem pegar numa guitarra, sentar-se em frente ao piano ou bateria e dar largas à imaginação. Sempre num ambiente calmo e descontraído (e cómico, por vezes), tem sido um bom spot para relaxar e fazer amigos. Seria possível em qualquer outro festival haver bons instrumentos musicais à disposição de todos que não saíssem estragados logo ao primeiro dia?

 

 

Ambiente

 

Às cinco e pouco vamos à igreja e comungamos a música tradicional de Carlos Baptista, sozinho no altar com cantares beirões, alentejanos e açorianos. A população de Cem Soldos não serve só para trabalhar para o festival; pode e tem usufruído dele, pois houve uma preocupação dos programadores em chamar até cá artistas que satisfaçam gostos mais clássicos. O lugar sagrado é tratado com todo o respeito, apesar do frenesim natural nestas coisas. Aqui temos o palco programado pel'A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria que, para além de estar recheado de bom gosto musical, é também o mais fresco de toda a aldeia.

 

Aqui as horas são marcadas pelo sino da igreja, inexorável, que nos orienta nas viagens de palco em palco e não deixa que os concertos se atrasem. 

 

 

Danças ao som de Celina da Piedade

 

Celina Piedade, bem acompanhada, provocou uns bons passos de dança no palco Giacometti, onde, mais tarde, assistiríamos a um dos momentos mais bonitos do Bons Sons até ao momento, com António Zambujo. Pela primeira vez naquele palco, a organização pediu ao público que se levantasse, para poderem caber mais pessoas. Estava mesmo à pinha. A receção foi tão entusiástica que o artista ficou visivelmente emocionado. As palmas foram intensas de início ao fim, e ouvidos bem educados e conhecedores. As mais cantadas foram "Reader's Digest", "Flagrante" e "Zorro". Ao nosso lado é que estava uma rapariga com boa voz que as cantou todas. E lágrimas no canto do olho também não faltaram. 

 

 

António Zambujo

 

Por imprevistos e desencontros vários, nunca tinha tido oportunidade de ver um concerto de Linda Martini. Por essa razão e por todo o histerismo de quem já assistiu, estava ansioso e cheio de expectativas. O concerto foi bom, mas não tanto como prometia. É certo que apesar de alguns tempos mortos, quando é para partir tudo, é a sério. São 4 músicos na frente do palco que se atiram a ti e produzem um som com uma energia brutal. Mas há opções que não se percebem: ficam de fora de um concerto curto grandes músicas como "Dá-me a Tua Melhor Faca" para darem lugar a um início que, para além de melancólico, foi maçador. Mesmo entrando no espírito, e acompanhando o já numeroso grupo de culto que a banda conquistou, não percebo qual a piada de cantar 139 vezes o refrão de "100 metros sereia". E sim, o Hélio Morais é um excelente baterista. Para falar entre as músicas é que já não tem tanto jeito...

 

 

Linda Martini

 

No concerto de PAUS, pouco depois (a que mal conseguimos assistir, porque por causa da enorme multidão fomos obrigados ir para bem longe do palco Eira), Hélio Morais atira que o Bons Sons é o melhor festival do país. Em quantos festivais já o disse? Logo depois de ter desafiado a população a "não se vender", mostrou que ele é que se vende à aceitação do momento.

 

 

Legendary Tiger Man

 

Outro prato forte da noite de ontem foi The Legendary Tigerman que, apesar de estar a recuperar de um acidente, voltou a não surpreender - isto porque esperamos o melhor dele. Em grande estiveram "Femina", último álbum, e o seu bom humor. Como já foi dito, conquistou pessoas de várias idades. Provavelmente já o escrevi noutros artigos, mas a melhor forma de reagir a um concerto de Paulo Furtado é referir que recebemos uma lição de bom blues e rock n' roll. No final conversou connosco e deixou grandes elogios ao formato do Bons Sons. "Em Lisboa sinto falta deste bairrismo", admite.

 

 

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