02 de Setembro às 16:03, por Mariana

A Mestria Versátil de Mr. White

Jack White no Coliseu dos Recreios (21/08/2012)

 

Cinco anos depois, numa noite quente de lua cheia, o Mr. White regressou a Portugal, vencendo na sua estreia a solo no Coliseu de Lisboa. Se as expectativas já eram altas – e comprovou-o uma sala que se encheu em Agosto e com o anunciar somente um mês antes – Jack White provou ser um mestre do rock mais autêntico e superou-as. Soube manipular habilmente todo o seu reportório num alinhamento excelente, mas ninguém negará que a surpresa da noite foi o sucesso ao vivo do seu Blunderbuss.

A ansiedade aquecia o ar da baixa lisboeta, e coube aos alfacinhas Poppers assegurarem o público na primeira parte do espectáculo. Trouxeram-nos Up With Lust, que se em estúdio se revela um tanto ou quanto banal, ao vivo soa a uns gritos amadores e guitarradas básicas e aleatórias que a pouco ou nada sabem; um rock ruidoso no mau sentido, que falha em conquistar um público exigente. Visivelmente agradecidos por tocarem nesta sala, o palco revelou-se demasiado grande para eles – tanto que a primeira vez que vimos o público a aplaudir verdadeiramente foi quando um fã subiu ao palco e deu umas guitarradas pelo vocalista Luís Raimundo. Fez-se um brinde em acordes ao rock ‘n’ roll nacional, e guardaram o trunfo para o fim: “Drynamill”, já conhecida do público, foi a escolhida para a despedida, e foi sem dúvida a acertada e o melhor momento da sua actuação, conseguindo arrancar uns “lá lá lás” afinados no fácil refrão – mas ainda assim deixou muito a desejar.

 

 

Por volta das 22h, os sapinhos já não podiam mais com a espera por Jack White. Com um palco coberto de branco e assistentes vestidos a rigor, que nos apelaram a guardar os telemóveis e ver o concerto em 3D – conseguindo contrariar o ritual de telemóveis em riste para gravar as músicas mais marcantes – o músico multi-instrumentalista americano, considerado por muitos dos melhores guitarristas de todos os tempos, apareceu em palco bem preto no branco, banhado em aplausos eufóricos.

Cumprimentou-nos com as riscas brancas de “Dead Leaves And The Dirty Ground”, mas foi a primeira incursão ao seu trabalho a solo que levou o público ao rubro. “Sixteen Saltines” prova o seu poder ao vivo, transformando um inteiro coliseu numa massa trepidante e entusiástica, com direito aos primeiros crowdsurfers da noite. Estava lançado o mote para um grande concerto. Ainda que pouco comunicativo (poucas palavras nos dirigiu directamente, senão um arrebatado “You alright, Portugal?”), é a linguagem corporal de Jack que nos fascina, irrequieto pelo palco, entre guitarradas geniais e toques no piano, entre danças frenéticas e gritos desesperados e contagiantes. 

De “Missing Peaces” a “Blunderbuss”, desde logo pudemos comprovar como tão bem resulta o álbum Blunderbuss ao vivo. De notar a excelente banda que acompanhou o homem da noite, desde o frenético pianista, ao incansável baterista. Mas nada como a bela música dos White Stripes para escrever história de grandes noites e grandes concertos - e depois de uma passagem pelos Dead Weather, foi essa a grande aposta de praticamente todo o concerto, antes da banda se retirar de palco. O ritmo abrandou um pouco, tornou-se mais intimista, foi-nos apresentada a banda, e o registo variou entre o country agudo e agitado de “Hotel Yorba” e o rock, ao doce folk quase infantil de “We’re Going To Be Friends”; mas Jack White sabe bem como prender um público, e fez questão de reaquecer ainda mais os ânimos com “The Hardest Button to Button” antes de se retirar.

De imediato, tem um inteiro coliseu a chamar por ele, fazendo estremecer a sala inteira enquanto entoa a plenos pulmões “Seven Nation Army” – uma canção que ao longo dos anos se tornou num hino de uma geração. E ei-lo de volta, sorridente, voltando em grande com um dos melhores encores de sempre. “Steady, As She Goes”, dos Racounteurs, é a escolhida, e volta a fazer-nos vibrar e saltar mais que nunca – é tempo de regressarem também os crowdsurfers, talvez apenas em busca de algum ar fresco. O ritmo crescente dá lugar à poderosíssima “Freedom at 21”, criando todo um ambiente frenético e inesquecível.

Naturalmente, o concerto acabaria em grande. O violino de “Hypocritical Kiss” ou um explosivo “Blue Blood Blues” dos Dead Weather levaram-nos aos nossos limites físicos… mas mal ouvimos os acordes de “Seven Nation Army”, gerou-se a euforia máxima. Cantada a plenos pulmões, aos saltos, aos empurrões, contagiados pela felicidade musical que se gerava, ninguém ficou indiferente. Mais que uma música, é um autêntico hino, e nem mesmo a sua utilização abusadora em estádios de futebol ou remixes melhores ou piores consegue destituir-lhe o mínimo encanto. Nunca se devem ter visto num tão curto espaço de tempo tantos crowdsurfers, tantos saltos, tantos sorrisos, motivados apenas pelo tão bom e autêntico rock ‘n’ roll. Não há palavras para descrever o que se gerou naqueles últimos minutos de Agosto, a felicidade que se viveu, sendo, pessoalmente, um dos melhores momentos ao vivo que já presenciei. Absolutamente inesquecível.

E assim se despediu Jack White agradecendo bastante, após Mr. Jones, o talentoso baterista, nos mostrar uma vez mais os seus dotes. Uma actuação excelente e muitíssimo competente, sem falhas e baseada num alinhamento de luxo, que percorrendo os vários registos musicais dos seus vários projectos, desde o blues, ao folk ou ao rock mais autêntico, passando por umas tendências country bem americanas, conseguiu dar uma maior consistência ao seu trabalho a solo, que em estúdio pode soar, dentro da sua mestria musical inegável, um pouco incoerente. Duas horas e vinte músicas do melhor que se tem feito nas últimas décadas, e que mesmo assim nos soube a pouco, de tão bom que foi. Jack White está no topo, e ontem em Lisboa provou-nos o porquê!

 

Texto: Mariana Coimbra
Fotos: António Carvalho 

 

Alinhamento:

Dead Leaves and the Dirty Ground (White Stripes)

Sixteen Saltines

Missing Peaces

Weep Themselves to Sleep

Blunderbuss

Hotel Yorba (White Stripes)

Love Interruption

I Guess I Should Go To Sleep

I Cut Like a Buffalo (Dead Weather)

Cannon/Ball and Biscuit (White Stripes)

We’re Going to be Friends(White Stripes)

The Same Boy You’ve Always Known (White Stripes)

Two Against One (Rome)

The Hardest Button to Button (White Stripes)

 

Encore:

Steady, As She Goes (The Raconteurs)

Freedom At 21

Hypocritical Kiss

Nitro (cover de Hank Williams)

Blue Blood Blues (Dead Weather)

Seven Nation Army (White Stripes)

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