26 de Novembro às 14:02, por Pedro

Novos hinos para uma nova luta

Pais e filhos de abril no Coliseu. Mais pais, que viveram o florescer da liberdade e agora a vêem  ser lentamente amputada. O concerto foi de apresentação de «Mútuo Consentimento» – de teor não tão interventivo –, mas era impossível contornar o ADN de Sérgio Godinho e a situação atual do país. Durante quase duas horas, o cantor, acompanhado pelos Assessores e, a tempos, pelo grupo Roda de Choro de Lisboa, percorreu os 40 anos de discografia e deixou um Coliseu quase cheio absolutamente extasiado.

O concerto foi adiado para dia 25 devido à greve geral. É certo que a maior parte da população em protesto não teria carteira para ir ao Coliseu, mas este espetáculo encaixava na perfeição no culminar de um dia de luta. Inicia-se com três músicas do mais recente álbum. “Mão na Música” é um hino falado, que exprime solenemente o poder e os efeitos da música casada com a poesia. Coincidindo com o alinhamento do álbum, seguiram-se Bomba Relógio e Acesso Bloqueado, que foi precedida do cumprimento de Sérgio Godinho à plateia: é noite de «músicas novas e menos novas, mas atuais». Definitivamente.

Alternadamente, duas cores tomaram conta do palco durante todo o espetáculo, anunciando o cariz dos temas: o azul, e o vermelho dos cravos e da contestação. Sérgio Godinho vestiu-se de preto.

«O país está de pantanas, ninguém o varre», exclama, dando mote para «Já joguei boxe, já toquei bateria», «A vida é feita de pequenos nadas» e «Arranja-me um emprego». É a partir deste pack revolucionário que se intensificam as palmas. Em «Arranja-me um emprego» foram mesmo algumas pessoas a aplaudir de pé. De facto, estas músicas são, infelizmente, completamente atuais.

De volta a Mútuo Consentimento, Sérgio Godinho recorda os convidados que participaram no novo álbum e toca um tema nostálgico, gravado com Bernardo Sassetti: «Em dias consecutivos». Apenas acompanhado por uma guitarra, chega o single homónimo do álbum: é curto mas incisivo; à minha frente, mal soa o primeiro verso, um casal beija-se. Está tudo dito, o single foi muito bem escolhido e cumpre o propósito.
O momento romântico foi interrompido por «Liberdade», êxito consagrado e um dos pontos altos da noite, com insistentes palmas de pé. A partir daqui torna-se impossível apontar um momento como a cereja no topo do bolo. Por entre comentários como «Ou estamos na euforia ou na depressão. É bipolar, garante a ONU» e temas mais populares como «Etelvina», «Só neste país», «Pode alguém ser quem não é?», o Coliseu ficou eufórico, completamente rendido e a acompanhar as canções que fazem de Sérgio Godinho uma das caras da Liberdade e um dos mais respeitados músicos portugueses de todos os tempos. Na plateia estavam caras conhecidas, como Camané.
Em «Intermitentemente» entra em palco o quinteto Na Roda do Choro de Lisboa com bandolim, clarinete, pandeireta, acordeão e guitarra portuguesa, que acompanharam o cantor em mais duas músicas e voltaram no final do espetáculo. O palco esteve bem preenchido e a completa nitidez sonora (Coliseu é Coliseu) ajudou e muito a criar todo o ambiente.
«Não te deixes assim vestir» foi outra música acompanhada de uma crítica bem direta: «Houve uma altura em vieram dinheiros para Portugal, parecia que ia ser tudo em grande!». Andamos mal vestidos? Ou quase nus? Sentiam-se aquelas palmas que se esforçam por ser fortes, convictas, de quem está revoltado e comunga plenamente cada palavra e cada crítica ao estado de coisas, que parece, afinal, crónico. Um concerto que divertiu mas que nos pôs o tempo todo a refletir.
Um «Viva o Zeca!» e a obrigatória «O Primeiro Dia» pareciam marcar o final do concerto. As frases são batidas mas fazem mossa, ainda por cima ao vivo. A plateia cantava e Sérgio Godinho brindava-a com um copo de vinho. Mas houve ainda tempo para «Lisboa que amanhece», o “Elixir da eterna juventude” ou o “Homem dos Sete Instrumentos”. O fim dá-se “Com um brilhozinho nos olhos”. O cliché é irresistível: ontem soube-me a tanto.
Pessoas mais velhas que já tiveram mais oportunidade de ver Sérgio Godinho ao vivo, garantiram: está em forma! O concerto foi irrepreensível  e deixou todos emocionados. Mas músicas destas, com tanta carga ideológica, soarão sempre mais poderosas ao ar livre, acessíveis a multidões cheias de vontade de dar a volta a este país.
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