15 de Julho às 07:44, por Repórter

Lykke Li, a pequena endiabrada

 

Não se deixem enganar pelo ar vulnerável: Lykke Li foi a carismática dominatrix da primeira noite do Super Bock Super Rock. Se o novo disco, "Wounded Rhymes", já impressionava, ao vivo ninguém pára a jovem cantora sueca.

Ao início viu-se névoa, muita névoa, que ainda assim não foi capaz de competir com a poeira que marcou, tal como no ano passado, todo o recinto do festival. Aos poucos, Lykke Li e os cinco músicos que a acompanharam foram surgindo e começou a ouvir-se "Jerome", precisamente uma das canções mais nebulosas de "Wounded Rhymes", o segundo álbum da cantora e compositora, editado este ano.
Além da névoa, vários panos pretos entregues ao vento e o próprio vestido de Li, que aos primeiros minutos esteve coberto por um véu, reforçaram a ideia de mistério que o novo álbum emana. Mas apesar de negra, a pop da artista sueca nunca é macambúzia, e por isso ao segundo tema fez quase todos dançar com "I'm Good, I'm Gone", uma das recordações mais celebradas do álbum de estreia, "Youth Novels" (2008). E dançar nem sempre foi fácil, sobretudo nos primeiros minutos da actuação, antes de parte do público abandonar o Palco EDP para ir aproveitar o rock dos Arctic Monkeys no Palco Super Bock. Sorte de quem ficou, que teve mais espaço para dançar e viu na totalidade um dos grandes concertos da temporada.
"Dance, Dance, Dance", outra revisitação do primeiro disco, fez jus ao nome. "Esta é a minha canção favorita de sempre!", gritou uma adolescente a uma amiga. Voltaríamos a ouvi-la gritar quando reagiu, com alguma histeria, a um breve contacto da cantora com o público. "Estás bem?", perguntou Lykke Li - assim mesmo, em português. E sim, estava tudo muito bem, até porque a cantora fez com que dificilmente alguém se aborrecesse. As canções, já de si boas, ajudaram, embora tenha sido a energia da artista a causar maiores estragos: atiradiça, não se cansou de enfrentar o bombo ou os pratos, dando contornos mais encorpados a alguns temas. Foi o caso de "I Follow Rivers", que além de ser uma das melhores faixas de "Wounded Rhymes" e de contar com um dos videoclips mais arrepiantes do ano, ainda mostrou ser um belo rastilho para uns quantos headbangers. "Rich Kids Blues" não fez a coisa por menos, contando com uma percussão em modo metralhadora e teclados em ponto de ebulição.  
Nem tudo foi, ainda assim, tão agitado. Em "Love Out of Lust" ou "I Know Places", Lykke Li baixou a guarda e abraçou subitamente a fragilidade - com belíssimos resultados, diga-se. Infelizmente, foi também em temas como estes, mais calmos, que algum público preferiu falar e fumar como se estivesse num café e o concerto fosse apenas música ambiente. Vá lá que o desinteresse (e falta de respeito) não durou muito, já que o jogo desta sueca ainda tinha alguns trunfos: uma breve passagem por "Silent Shout", dos The Knife (em jeito de interlúdio) ou uma combinação da base rítmica de "Monster", de Kanye West, com "Youth Knows No Pain", devolveram as doses certas de pujança ao concerto. E a partir daí a actuação praticamente não teve travões, atingindo a meta na atrevida "Get Some", fechando cerca de uma hora em que Lykke Li deu ao público tudo o que ele quis.

 

Texto e fotos @Gonçalo Sá

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