16 de Julho às 07:36, por Repórter

Os subúrbios foram à praia

 

Mais do que um concerto, a actuação dos Arcade Fire foi uma experiência colectiva revigorante, tanto que até resistiu a limitações de som. Depois do cancelamento do espectáculo do ano passado, em Lisboa, a banda canadiana apresentou finalmente, no Meco, a colecção de novos hinos que é "The Suburbs", o seu terceiro disco.

Em Novembro do ano passado, a cimeira da NATO estragou a vida a muito boa gente que aguardava há meses para ver, ao vivo e a cores, os autores do muito amado "Funeral" (2004), no Pavilhão Atlântico. Os Arcade Fire viriam então a Lisboa apresentar o seu novo álbum, "The Suburbs" (2010), um olhar sobre os subúrbios e as memórias da adolescência de Win Butler, o mentor do grupo.

Menos de um ano depois, o colectivo canadiano regressou efectivamente a Portugal, na noite desta sexta-feira, e levou a que os subúrbios (ou parte da sua faixa mais jovem) fossem ao Meco. Poucos minutos antes da entrada da banda em palco, um letreiro de cinema retro anunciava que os Arcade Fire chegariam em breve. O público, esse, já tinha chegado há muito para uma sessão mais do que especial e com lotação esgotada (30 mil pessoas), mesmo que, tantos meses depois da edição, "The Suburbs" já não tenha o sabor de uma estreia.

Esta falta de novidade acabou, contudo, por não ser um problema, já que o atraso deu tempo para que boa parte dos espectadores tivesse as novas canções na ponta da língua. É que se a banda cantou, o público não lhe ficou atrás. Antes pelo contrário, uma vez que em alguns temas era mais fácil ouvir os coros da multidão do que as vozes de Win Butler e Régine Chassagne, cortesia de um som muitas vezes baço e de volume instável.

Em várias ocasiões, das quais "Ready to Start", "No Cars Go" ou "Wake Up" foram os exemplos mais expressivos, a dedicação da banda foi amparada e reforçada por um público sempre disponível e participativo, conjugação que mostrou que um grande concerto não depende só de quem está em palco. Arriscamos dizer que não houve mesmo um único tema em que o público não cantasse, e a força e tom dos coros não andou, por vezes, muito longe de cânticos futebolísticos. Faz sentido: tal como um bom jogo de futebol, também um concerto dos Arcade Fire pode resultar num episódio de comunhão colectiva, com a vantagem do sentimento de pertença não obrigar a disputas clubísticas. Ainda assim, avistaram-se - e sobretudo ouviram-se - vários hooligans festivaleiros, não só britânicos mas também espanhóis, para quem a festa partia mais da bebida do que da música. Nem sempre dançaram da forma menos incomodativa para quem estava perto e os gritos canção sim, canção sim, também não nos ajudaram a apreciar o momento. Felizmente, também não o estragaram nem impediram que a banda se deslumbrasse com tamanha adesão. "Vocês devem ter um poder especial. Andamos em digressão há cinco semanas e este parece o primeiro concerto", confessou Win Butler, aumentando ainda mais o capital de simpatia. O vocalista não se ficou por aí, sugerindo, já na recta final da actuação, que o público português ensinasse o de outros países - esperamos que alguns estrangeiros presentes, pelo menos os da facção quase desordeira, tenham tido essas palavras em conta.

Os instantes em que a banda se dirigiu ao público não foram além destas frases de circunstância, mas também não foi preciso mais. A atitude dos Arcade Fire, enérgica e vibrante, casou bem com o lote de grandes canções que o alinhamento disparou - muitas são já canções para a vida e para muitas vidas, tanto as de "Funeral", ainda o disco de referência dos canadianos, como as de "The Suburbs", que os devolveu ao rumo certo depois do menos apaixonante "Neon Bible" (2007). Da leveza calipso de "Haiti" (vincada pela dança cativante de Régine), passando pela descarga quase punk de "Month of May" (que pareceu levar tudo à frente) ou pelos arrepios da nostálgica "We Used to Wait" (um dos maiores crescendos emocionais da noite, dizemos nós), o alinhamento foi infalível. Foi tão infalível, aliás, que nem nos fez desejar uma noite mal passada aos tais hooligans festivaleiros, até porque acabámos a cantar, dançar e saltar "Sprawls II (Mountains Beyond Mountains)" ao lado deles. É assim o poder da música; são assim os pequenos milagres dos Arcade Fire.  

 

Texto @Gonçalo Sá/ Fotos @José Sena Goulão/Lusa (o SAPO não foi autorizado a fotografar o concerto)

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