04 de Dezembro às 18:45, por Pedro

Quando não há espaço para te mexeres

No primeiro dia a fasquia tinha ficado elevada e a segunda noite de Vodafone Mexefest manteve o nível, desde a técnica aprimorada de Filho da Mãe e WE TRUST até ao descontrolo proporcionado pelo rock rebelde d'Os Velhos e Blood Red Shoes. Com os passes esgotados, a pior parte foram as enormes filas de espera para os concertos e a frustração de quem, com bilhete, não pôde assistir a tudo o que queria.


 

 

Filho da Mãe atuou num espaço de gala, a sala Portugal da Sociedade de Geografia. Se a expressão «filho da mãe» está associada a cretinos que «a sabem toda», é justo dizer que Rui Carvalho domina a guitarra como poucos. Só com cordas e pedal, percorreu trilhos por vezes vertiginosos e deixou abismados aqueles que não conheciam a sua perícia. Não são precisas palavras quando os acordes carregam e transmitem por si só tantos sentimentos. Filho da Mãe não toca guitarra portuguesa, mas há quem diga que é da família de Carlos Paredes. Habituados às correrias avenida acima, avenida abaixo, nem todos aguentaram sentados durante muito tempo e esperaram as palmas para se escaparem para outras salas. Os que resistiram ao frenesim acompanharam silenciosamente as músicas e brindaram o artista com fortes aplausos de pé.

 

Os Velhos apanharam o Vodafone Bus e fizeram a festa em formato snack: doses curtas (cerca de 20 minutos) que se repetiram várias vezes. As viagens nos transportes públicos costumam ser aborrecidas e viajar de pé um sacrifício; neste autocarro apinhado foi a completa loucura. Os versos fáceis de gritar também ajudaram. Valeu o tempo de espera na paragem.

 

No Tivoli James Blake dava um dos concertos do festival, mas houve tempo para ir à Casa do Alentejo espreitar WE TRUST. A batida de «Time (Better Not Stop)» tomou conta do verão, mas «These New Countries» não se fica pelo single. A sala bem composta deixou-se contagiar imediatamente por temas que são tão agradáveis como o single e também ficam facilmente no ouvido. É uma pop coesa; André Tentugal já nos provou, noutros projectos, que quando faz, faz bem. Não é nenhum animal de palco, mas percebe muito de música. Aos transeuntes que passeavam pela rua também foi possível desfrutar do concerto.
A estação de Metro dos Restauradores foi, definitivamente, uma má aposta da produção. Já em PAUS, no primeiro dia, o trabalho dos fotógrafos tinha sido muito complicado. Em Blood Red Shoes, a missão foi quase impossível. O palco está quase ao nível do público: ou és dos primeiros a chegar e te sujeitas a ser esmagado nas primeiras filas para ver o concerto ou afastas-te um bocado da confusão e apenas o ouves. Ficas sempre a perder.
«Keeping It Close» foi um arranque fortíssimo e pôs logo as primeiras filas aos saltos e encontrões. A «fitinha» cerimonial que separava o «palco» do público era completamente inútil. Houve mesmo uma confusão entre um segurança e alguns elementos do público, que levou a banda a fazer uma pausa no concerto. Tanto Blood Red Shoes como o público mereciam um espaço melhor, onde a excitação não fosse sinónima de violência.

 

Em jeito de rescaldo, quase tudo foi bom neste festival: a cortesia do principal patrocinador, que ofereceu castanhas e chocolate quente na Avenida, as cerca de 20 carrinhas que serviram de taxi gratuito e nos pouparam algumas correrias, o bom nível dos concertos e, principalmente, a diversidade do cartaz. A rever: a estação de Metro dos Restauradores não serve, o acesso ao terraço do Tivoli por apenas dois elevadores é cómico e é preciso repensar o número de bilhetes vendidos, para evitar o que se passou em James Blake e Oh Land, por exemplo.
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