National Geographic Summit: Tristram Stuart e a luta contra o desperdício

Aos 15 anos, decidiu criar porcos. Negociou com pequenas superfícies de comércio local para que lhe cedessem os seus desperdícios. Usou-os para alimentar a sua vara. O negócio fluía e Tristram vendia os animais a amigos da família. Com o avançar do tempo, apercebeu-se que a comida que recolhia – para servir de ração – encontrava-se em perfeitas condições. Começou a consumi-la.

«A minha mãe ficou chocada: via-me comer aquelas coisas. Eram vegetais e frutas, perfeitamente normais, que apenas não podiam estar numa loja.

Acho que ela nunca aceitou nem percebeu. Até que, um dia, chegou a minha casa e eu tinha umas 20 caixas de mangas que tinha acabado de trazer… desperdícios de um supermercado. Descasquei-lhe uma. Disse-me que era das melhores mangas que alguma vez tinha comido. Lembro-me que levou algumas caixas consigo, fez chutney e guardou em frascos. Depois disso, tornou-se numa das maiores ativistas que conheço».

Mas não foi neste tom animado que a palestra de Tristam Stuart começou. Afinal, não é tão fácil convencer as pessoas a quem pesam os bolsos.

«Até 2050, estima-se que à população terrestre atual se juntem cerca de 2 mil milhões de pessoas. De certeza que já ouviram dizer que, se a população aumenta, a produção também precisa de aumentar… certo? Errado.

Aquilo que produzimos, a nível global, é mais do que suficiente para alimentar toda a população. Cerca de um terço de toda a comida produzida perde-se ou é desperdiçada, o que equivale a, nada mais nada menos, que cerca de 1,6 mil milhões de toneladas. Apenas um quarto do desperdício da Europa, Reino Unido e EUA seria suficiente para alimentar o quase milhar de milhão de pessoas que sofre de fome no mundo».

Mas as consequências deste desperdício ganham uma dimensão ainda maior. Os números não são simpáticos e impressionam com facilidade. Uma resposta, como nos explica Tristram Stuart, é urgente, necessária e, acima de tudo, possível. Foquemo-nos em ainda mais valores.

A água, o bem essencial por excelência, usada nos sistemas de irrigação, e aqui estamos a contar apenas a que é usada para regar esses excedentes que nunca nos chegam aos pratos, seria suficiente para suprir as necessidades domésticas de 9 mil milhões de pessoas. Gastando, sensivelmente, 200 litros de água por dia, colmataria as necessidades de toda a população de 2050.

E se perguntarem a vocês mesmos, o que aconteceria se juntássemos todos os desperdícios que geramos num só país? O resultado seria o terceiro maior emissor de gases de efeito de estufa do mundo, apenas atrás dos EUA e da China.

Mas se, por exemplo, plantássemos árvores nos campos onde crescem estes excedentes ou é criado o gado que morre em vão? Teoricamente, seríamos capazes de anular 100% dos gases de efeito de estufa emitidos por veículos movidos a combustíveis fósseis. Eliminar o desperdício a nível mundial equivaleria a tirar de circulação um em cada quatro carros, baixando as emissões de dióxido de carbono em 4,4 milhões de toneladas por ano. Mas não acaba aqui.

«Os seres humanos têm necessidades nutricionais. No entanto, ninguém precisa de uma Coca-cola, por exemplo. Podem alegar que têm vontade de uma, mas não é uma necessidade.

Se cada país tivesse nos seus mercados, supermercados, o que for, apenas a quantidade de comida necessária para perfazer as necessidades alimentares dos seus habitantes, correria um risco. Algo podia estragar-se, uma colheita poderia ter um problema, etc… Por isso, os especialistas consideram que 130% seria a percentagem aconselhável. Países como os EUA ou Luxemburgo atingem os 200%. Isso é o dobro do que, para ter uma alimentação saudável, os seus habitantes deveriam consumir.

A isto, falta ainda acrescentar, os quase 50% de bens alimentares que são desperdiçados entre as quintas e os nossos pratos.

4600 quilocalorias de comida são, diariamente, recolhidas para toda a população, quando, em média, apenas 2000 quilocalorias são, na verdade, consumidas».

Deixando, por um momento, os grandes números de parte, Tristam Stuart, Young Global Leader e presença assídua no Fórum Económico Mundial, mostra como pequenos gestos podem significar grandes vitórias. Uma das mais recentes, há cerca de um ano, foi frente à Tesco, a maior cadeia de supermercados do Reino Unido. Esta multinacional, que em 2014, contava com cerca de sete mil lojas, espalhadas por 13 países, não andava a manusear bem os feijões verdes que lhe chegavam do Quénia.

«Olhem para este pacote de feijão verde. Acho que todos já comeram feijão verde, certo? Todos podemos concordar que não se come o caule. A ponta, mais rija, é uma questão de gosto. Agora que isso está fora do caminho, reparem como as pontas destes feijões estão cortadas… Quando os cortamos em casa, fazemo-lo junto à ponta, para que se minimize o desperdício. Estes estão cortados numa zona ainda grossa.

Recapitulemos o processo. Estes feijões chegaram até ao supermercado depois de vencerem um rigoroso concurso de beleza – cerca de 40% dos feijões, foram eliminados ainda antes de sair da quinta. Obviamente, o tamanho dos produtos de uma colheita é algo fora do controlo dos agricultores».

Por esse mesmo motivo, as exigências da Tesco, implicavam que os trabalhadores agrários quenianos entregassem feijões com 9cm de comprimento exatos, antes de serem enviados para o Reino Unido. O resultado era o desperdício de cerca de 20% do comprimento desses feijões.

Quando contactada, a gigante rede de supermercados alegou que as embalagens estavam desenhadas para feijões verdes daquele tamanho e que a ideia destes estarem cortados nas pontas era uma conveniência: nenhuma preparação era exigida antes de os cozinhar.

«De um dia para o outro, com uma mudança no embalamento e nas exigências de corte, a produção aumentou, exponencialmente. 20 milhões de dólares em feijões foram ganhos com esta política. O mais engraçado é que as pessoas gostaram da mudança: a grande maioria preferia que os feijões tivessem ponta».

Curiosamente, além de vir de encontro às preferências do consumidor, a vitória foi também interna: a Tesco considerou-a a mais impactante iniciativa que alguma vez levou a cabo. Elevou a moral dos funcionários que passaram de não gostarem do seu trabalho a sentirem-se melhor com ele. A cadeia prometeu ainda arranjar soluções caso se verificassem excedentes: juntar os agricultores com os fornecedores de refeições pré-preparadas para que se pudessem escoar a sobreprodução.

«As vitórias não acabam aqui. O governo britânico baniu o cancelamento de ordens das cadeias de supermercados».

Chuva de aplausos.

«Há pessoas a trabalhar nos campos que ganham menos de dois dólares por dia. Pessoas que investiram as suas poupanças nas suas colheitas. Com o cancelamento de ordens em cima da hora, as colheitas são desperdícios. As pessoas não podem enviar os filhos para a escola, correm o risco de perder as suas casas e de verem penhorados os seus bens.

Cabe-nos a nós fazer algo a esse respeito. As soluções e alternativas estão ao nosso alcance».

E, como a melhor maneira de fazer alguém acreditar em algo é provando-o, a Feedback, a organização não lucrativa de Tristram – que já atua em 12 países – levou a cabo algumas das mais celebradas e divertidas iniciativas contra o desperdício alimentar.

«Feeding the 5000, o nosso evento principal, foi uma experiência assustadora, mas recompensadora. Em 2009, propusemo-nos a alimentar 5000 pessoas, gratuitamente, apenas com comida que, de outra maneira, seria desperdício. Enchemos Trafalgar Square e todos puderam provar e comprovar o que defendemos. Desde o primeiro que organizámos, eventos semelhantes aconteceram um pouco por todo o mundo: em Amsterdão, Sidney, Manchester, Portland…

A Disco Soup ou Disco Chop é outro tipo de evento que organizamos ou ajudamos a organizar. As pessoas são convidadas a cortar os seus vegetais ao ritmo da música. Há DJs e todos os que aparecem cortam os seus alimentos e preparam uma refeição em conjunto. Convivem e cozinham, voluntariamente, bens alimentares que merecem ser aproveitados. Têm sido um sucesso no Brasil, por exemplo».

Mas o desejo de mudar o mundo e de ver como este seria sem desperdício move Tristram, que faz muito mais que organizar estes encontros ativistas.

«Eu gosto muito de carne de porco, devem ter percebido pela história que vos contei. Sou um defensor ávido de que deveríamos reduzir o consumo de carne. Mas não precisamos de ser todos vegetarianos. Infelizmente, costumo dizer, que nenhum de nós se livra de ter a boca suja de sangue. Os solos que são usados para cultivar os vegetais e as frutas também já foram micro ecossistemas e habitats de espécies que tiveram de se relocalizar.

Mas a ideia de poder ter uma alternativa sustentável para um problema grave foi algo que me seduziu. O The Pig Idea é mais uma tentativa de alterar os números. O espaço necessário para cultivar comida para o gado suíno consumido, apenas na Europa, é do tamanho da Irlanda. 97% da produção mundial de soja serve para alimentar este tipo de gado. E sabem onde está a ser cultivada? Na floresta da Amazónia.

A solução passa por alimentar os porcos com os excedentes em vez de os enviar para uma digestão anaeróbica – por meio de microrganismos. Alimentar os animais deste modo, além de lhes saber melhor e ser mais saudável, até para nós, do que a ração, seria uma maneira de lidar com desperdícios locais e com menor vida útil assim como reduzir entre duas a 500 vezes a produção de dióxido de carbono. Algo que é proibido sob as leis europeias, mas é obrigatório em países como o Japão, Taiwan ou a Coreia do Sul».

Aproximamo-nos do final, mas há ainda tempo para apresentar a cerveja Toast, um trocadilho inteligente entre brinde e tosta.

«Sabem aquelas sanduíches triangulares que se vendem embaladas? Lembram-se de alguma vez ter visto as pontas do pão de forma em alguma das que já que comeram? Não? Pois.

70% do pão que sai dos fornos não é consumido. Mas quando nos focamos em algo como os pães de forma em fábricas de sanduíches isso equivale a cerca de 13 mil fatias de pão desperdiçadas, diariamente, apenas numa fábrica.

Por isso, quando soube que havia alguém, na Europa, a fazer uma cerveja a partir de pão, achei a solução. Depois de estabelecido o contacto, nasceu a Toast».

Aos excedentes de diversas padarias britânicas e às extremidades dos pães de forma que não são comercializadas, é acrescentada cevada, lúpulo, fermento e água. A comercialização em solo norte americano decorre já este ano.

No site da empresa, cujos fundos remetem a favor da Feedback, pode mesmo consultar-se a receita para fabrico próprio. E os números: 56 mil litros de cerveja que deram um propósito a 5 mil quilos de pão.

«Voltando atrás, sobre a comida, e porque a Jane está quase a pisar este palco. Alguns de vocês conhecem os bonobos? São uma espécie de chimpanzé.

Não, ok. Imaginem que são um bonobo. Têm uma pilha enorme de comida à qual não vão conseguir dar vazão. O que fazem com ela? Partilham-na com a família? Com os amigos?

Os bonobos partilham-na com outros chimpanzés. Com perfeitos estranhos. É uma maneira de criarem laços e ganharem novos amigos.

É isto que procuramos fazer.

Ontem, jantámos todos juntos. E eu devo ter feito uma total figura de parvo, a falar de bonobos com a Jane Goodall, como se ela não soubesse. Falei-lhe da partilha de comida.

Ela levantou-se, encheu um palito de azeitonas e enfiou-o na boca de alguém que estava a falar, noutra mesa. Filmei-o com o meu telemóvel, mas não consegui chegar a tempo de o inserir nesta apresentação. Querem saber o resultado? Foi relaxante. Primeiro, parámos um pouco, depois rimo-nos e bem, resulta».

O pequeno Q&A, no final da apresentação, trouxe realidades portuguesas para cima da mesa e Tristram não deixou de referir os projetos nacionais como o Refood ou o Fruta Feia, mas incentivou a que fossem tomadas medidas. Enquanto uma rapariga, trabalhadora do zoo de Lisboa, afirmou chocar os colegas ao levar restos das alimentações dos animais, como legumes, para casa; outra acrescentou que, trabalhando num supermercado e estando responsável por colocar os desperdícios em contentores após o fecho da loja, era obrigada a despejar lixívia para manter afastadas as pessoas.

«Se isso acontece, e eu sei que é uma coisa muito mais normal do que se crê, é preciso usá-lo como uma arma a nosso favor. Jornalistas, fotógrafos, operadores de câmara é preciso retratar estas realidades. Podemos transformar uma coisa má numa coisa boa. Esse argumento, que te deram, de que pode provocar intoxicações alimentares e que só estão a tentar demarcar-se desses casos… A verdade é que não conheço nenhum caso, nos EUA, no Reino Unido, em França, de alguém que tenha sido processado por ser caridoso».

A verdade é que o “sobreconsumismo” desenfreado e a falsa necessidade de produzir mais é, singularmente, a maior causa de deflorestação, extinção de espécies e uma das maiores ameaças globais, atualmente.

Há um longo caminho a percorrer, mas é preciso alertar o mundo e dar a conhecer os números verdadeiramente ressonantes daquilo que transformamos em desperdício, diariamente. Seja porque não cumpre os parâmetros ou não enche o olho. É preciso lutar a desinformação e mobilizar as pessoas para soluções que não comprometam o planeta Terra. Afinal, só temos um.

«Se temos alguma hipótese de reverter isto? Acredito piamente que sim. E mesmo que só tenhamos 1% de probabilidades de alterarmos as coisas é por esse 1% que temos de lutar. São esses valores tão adversos que nos devem motivar a ter ainda mais vontade de mudar a realidade em que vivemos. E isso passa por educar as crianças, propor políticas alternativas e mobilizar pessoas por todo o mundo».

Autor: Raquel Cordeiro

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