Miguel Angelo está de volta: "'Terceiro' será um disco para palcos maiores"

Miguel Angelo é um homem das artes, por muitos conhecido através da mítica banda Delfins, dos anos 80 e 90, mas já com dois álbuns a solo e um "Terceiro" a caminho. A propósito do lançamento do novo single, "A Canção", o SAPO On The Hop esteve à conversa com o cantor de Cascais para saber mais sobre o seu percurso recente.

miguel angelo

SAPO On The Hop: O que levou à criação de “A Canção”, e, em especial, à escolha do título?

Miguel Angelo (MA): O título deve-se a uma canção que fala de canções, ou melhor, que fala da necessidade de canções que nos inspirem tal como certos autores e livros nos inspiraram em tempos passados. Gosto da dualidade utopia-realidade e a maneira honesta e fria de lidarmos com isso, sem perder o horizonte do sonho numa vida curta que é a nossa.

Podemos assumir que este novo single acaba por ter um tom irónico e dirigido, especialmente, às camadas mais jovens perante a incompreensão ou desinteresse sobre os problemas globais da atualidade?

MA: Não. O tom irónico é na realidade mais aplicado a nós, camadas menos jovens, que sonhámos em mudar o Mundo através da revolução das mentalidades e agora temos de lidar diariamente com a frustração dessa impossibilidade. Daí o dançar sobre o assunto com o espírito libertino de outros tempos...

Mantendo-nos no mesmo tópico, como foi o palco da sala Bataclan, depois de toda a tragédia que chocou o mundo, na comemoração dos 25 anos da Cap Magellan, a associação de jovens lusodescendentes em Paris?

MA: Na realidade assim que entrei no Bataclan notei logo a ausência de qualquer peso. Não podia de todo tencionar sentir algo pesado e nobre só porque era isso que o nosso íntimo politicamente correcto pede. Mas aí a música trata de nos distrair e aligeirar esse peso. A noite foi sem dúvida Histórica mas pelo seu lado de celebração da vida e de comunhão, daquele clube lotado, suado e em festa apesar dos acontecimentos fatídicos. A nossa vitória, enquanto cidadãos, foi e será essa.

"A Canção" deixa no ar a dúvida sobre a relevância da arte nos dias de hoje. Há alguma música, livro, filme ou outro tipo de expressão artística recente que possa ser considerado especialmente relevante? Se sim, qual e porquê?

MA: Sim, o próprio livro maldito do Michel Houellebecq, "Soumission", que foi lançado por coincidência no mesmo dia do ataque ao Charlie Hebdo. Faz-nos equacionar o declínio da civilização ocidental democrática e as suas fragilidades latentes face a outras correntes de pensamento mais medievais e sem as sombras das dúvidas. Outra manifestação urbana que me interessa é a street art. Parece-me uma forma de mural político feliz, que acrescenta uma componente artística pessoal que não existia antes.

Quais são os elementos necessários para uma canção perfeita?

MA: Os elementos são fáceis de identificar: uma melodia que fique, uma letra que se lembre, um ritmo que contagie ou embale. Digo mais, até serão relativamente fáceis de produzir, individualmente. O difícil é que eles combinem e formem um todo, a tal canção “perfeita” que perdura no tempo.

O que podemos esperar do novo álbum depois deste single?

MA: Este single abre o caminho e a inclusão de novas sonoridades que não tinham sido usadas no "Primeiro" e no "Segundo" disco a solo. "Terceiro" será um disco para palcos maiores. Falo de uma vertente mais electrónica na programação e manipulação sonora e do uso de sintetizadores, que estiveram afastados voluntariamente dos dois discos anteriores. As letras também terão uma vertente mais específica, ligada a certas experiência e obras literárias que me marcaram, resultando diferentes daquilo que tenho escrito num passado recente.

Qual é a canção da sua vida, e porquê?

MA: Gosto muito de referir a "Heroes", do Bowie, mas as canções da minha vida também podem variar diariamente. Qual é hoje? Gosto muito do “E às vezes dou por mim”, do último disco da Cristina Branco.

Foi pioneiro nas dobragens, tradução lírica e até direção musical dos clássicos da Disney. No entanto, qual dos projetos foi mais marcante? Terá sido o instável Hércules, o curioso John Smith, o tenaz Woody...

MA: Sem dúvida o Woody. Pelo arrojo que foi aquele filme da Pixar, pela intensidade das personagens que se mantém até ao Toy Story 3, sem se deslavarem. E é para continuar, julgo...

É um senhor das artes. Se partisse para longe, mas apenas de férias, quais seriam as três escolhas que faria para se entreter e porquê?

MA: Um livro em branco, uma câmara de filmar e um conjunto de laptop com guitarra e microfone.

Fotografia: Edgar Keats

Autor: Carina Sousa

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