Tricky na Aula Magna: Vai ser tão bom, não foi?

Soube a pouco e, pior, nem soube muito bem. Antes pelo contrário: o regresso de Tricky a Portugal, esta terça-feira, foi um falhanço a quase todos os níveis, inaceitável numa figura do seu calibre e num espetáculo sem preços de amigo.

Tricky na Aula Magna

O pretexto para a atuação de Adrian Thaws na Aula Magna, em Lisboa, era "Skilled Mechanics", álbum de estreia do projeto homónimo criado em parceria com DJ Milo e o baterista Luke Harris, antigos colaboradores do britânico que ajudou a deixar o trip-hop no mapa musical há duas décadas. Mas do disco editado em janeiro acabou por nem se ouvir assim tanto, o que dificilmente seria um problema para o público maioritariamente acima dos 30 anos presente numa sala não esgotada, mas ainda bem concorrida, talvez mais interessado em recordar canções na linha de "Overcome", do clássico "Maxinquaye" (1995).

O pior foi mesmo a forma como o concerto regressou a temas como esse ou aos dos mais recentes "False Idols" (2013) e "Adrian Thaws" (2014), a par da apresentação das novidades "Hero", "Diving Away" ou "I'm Not Going", esta última a abrir a noite com Tricky mergulhado nas sombras de costas voltadas para os espectadores. Pouco depois o "Knowle West Boy" acabaria por se virar para o público, mas durante grande parte da noite a sua postura não fez grande diferença: nem ele nem os dois músicos que o acompanharam, na bateria e na guitarra, estiveram facilmente visíveis, culpa de um trabalho de iluminação que, como a música, preferia a escuridão à luz.

É certo que uma explosão de cores não seria o cenário mais expectável para as canções tensas, ondulantes e enigmáticas do músico de Bristol, mas isso não é desculpa para chegar ao extremo cavernoso visível (ou nem por isso) em diversos momentos. Tricky bem podia, aliás, espreitar uns concertos dos amigos Massive Attack, que se movem por ambientes comparáveis, para tirar umas notas sobre a vertente cénica. E já agora, sobre a vertente musical, uma vez que os autores de "Blue Lines" costumam convocar vocalistas para os seus espetáculos em vez de optarem por vozes pré-gravadas. É que nem sequer pode falar-se de playback (que já seria triste) quando em alguns temas Tricky se limitou a dançar (no máximo) enquanto nos dava a ouvir Martina Topley-Bird ou Oh Land. Belas vozes, sim senhor, mas já as conhecíamos dos discos, que de resto pareciam estar a rodar no palco, tendo em conta que as canções não se atreveram a fugir muito do formato original.

Por outro lado, essa opção talvez nem tenha sido a pior quando a forma vocal do britânico se mostrou tão débil. O tom sussurrante pode funcionar muito bem nos álbuns, mas em palco ficou soterrado pelos instrumentos, tão indistinguível como as tentativas de interação de Tricky com o público - basicamente reduzida aos agradecimentos da praxe, ainda assim suficientes para manter o entusiasmo de muitos que não lhe pouparam aplausos.

Durante pouco mais de uma hora de uma atuação que pareceu nem ter chegado a arrancar (o primeiro de dois encores deu-se aos 40 minutos), este regresso só não bateu no fundo pelo esforço dos músicos e por momentos que deram um vislumbre do que Tricky é capaz. "Boy", um dos pontos altos de "Skilled Mechanics", voltou a destacar-se ao vivo: o relato autobiográfico de uma juventude passada em bairros pouco recomendáveis de Bristol trouxe algum nervo a um concerto que precisava desesperadamente de um abanão. E aí, finalmente, Tricky fez-se ouvir, gritou, movimentou-se, contorceu-se, ajustou-se ao frenesim instrumental com o trip-hop a chegar-se ao rock mais agreste.

Infelizmente, esse tema foi a exceção que confirmou a regra e nem o outro episódio com algum imprevisto - ou nem tanto, já que é o final habitual dos concertos do britânico - conseguiu salvar a noite. Na despedida, ao som de "Here My Dear", Tricky chamou o público das primeiras filas para o palco, mas insistiu que as luzes fossem desligadas ("Turn the fucking disco lights off!"). O pedido - repetido até se transformar em ordem - acabou por ser concretizado. Mas se a ideia era ficar a ouvir música às escuras, revisitar os discos no quarto ou na sala de estar teria sido uma opção mais apetecível - e, sobretudo, muito menos frustrante e dispendiosa.

Foto: Ana Castro

Autor: Gonçalo Sá

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